Introdução

 

“ A linguagem oral faz-nos humanos e a linguagem escrita Faz-nos civilizados.”

(Olson (1997), cit. In Cruz, 1999)

 

É inaceitável que em pleno século XXI os problemas de leitura e escrita ainda não tenham uma resposta eficaz no meio escolar, num trabalho interdisciplinar, contando com a ajuda externa de profissionais da psicologia e da medicina.

Apesar dos apelos da Associação Portuguesa de Dislexia à implementação urgente de algumas medidas, tais como, a criação de estruturas de despiste e reeducação precoces; consultas multidisciplinares para avaliação de casos; formação de professores numa pedagogia especifica e meios de informação sobre estruturas de apoio a alunos com dislexia. A escola ainda não responde eficazmente ao desafio que as dificuldades de linguagem como dislexia, disgrafia, disortografia, etc… colocam nas salas de aula. Estes problemas preocupam os pais, porque sabem que o sucesso escolar dos seus filhos depende, e muito, da aprendizagem eficiente da leitura, escrita e ortografia. Assim, muitos pais, sem uma resposta eficaz da escola, procuram, fora do ambiente escolar, profissionais na busca de ajuda para superar estas dificuldades.

Ao longo destes cem anos de pesquisas, a dislexia tem sido deixada à margem das salas de aula. Diversas falhas induzem a um falso diagnóstico e as dificuldades escolares destes alunos são consideradas um indício de baixa capacidade intelectual. A dislexia pode afectar a aprendizagem da leitura e escrita, porém, não interfere na criatividade, talentos e aspirações. É imprescindível ajudá-los a crescer, a restabelecer a confiança em si próprios e a explorar as suas capacidades.

Perante um caso concreto de uma aluna, em que só no 11º Ano de escolaridade é realizada uma avaliação e por sua vez um diagnóstico – Dislexia Superficial Ligeira e Forma Ligeira de Disgrafia de Superfície, podemos questionar-nos e reflectir sobre a preparação da nossa Escola para lidar com as patologias da linguagem.

“Para que a possibilidade de sucesso nas escolas se possa concretizar, estas devem adequar-se às crianças e jovens com NEE, através duma pedagogia neles centrada e capaz de ir ao encontro dessas necessidades. Cada aluno tem características, interesses, capacidades e necessidades de aprendizagem que lhe são próprias. Os sistemas de educação devem ser planeados e os programas devem ser implementados tendo em vista a vasta diversidade destas características e necessidades”. Declaração de Salamanca (1994) cit. in no Parecer do Conselho Nacional de Educação (1999: 11).

“Perante um problema de insucesso escolar, não se trata unicamente de saber qual é o défice da criança, ou o problema da sua relação familiar, mas trata-se de saber o que faz o professor, o que faz a escola para promover o sucesso desta criança. … É preciso que, na sala de aula, se desenvolvam estratégias pedagógicas que ajudem todas as crianças a darem o seu melhor, a progredirem tanto quanto lhes for possível”. Ana M. Bénard da Costa (1996) cit. in Parecer do Conselho Nacional de Educação (1999: 12).

Apesar de o Conselho Nacional de Educação reconhecer que a educação de crianças e jovens com NEE implica uma profunda reforma no sistema e que o êxito da escola inclusiva depende muito da identificação precoce, da avaliação e da estimulação das crianças desde as primeiras idades tem-se feito muito pouco na área da dislexia.

A Escola é uma das mais importantes instituições na formação de toda uma geração. É um grande e complexo trabalho de equipa, na qual participam professores, alunos, encarregados de educação, os diversos gabinetes e os diversos técnicos. Os professores têm um papel fundamental na vida dos alunos. Ser professor é uma tarefa difícil, é das poucas profissões onde tão importante como usar o conhecimento é usar a sensibilidade humana. Urge que as entidades competentes invistam no desenvolvimento pessoal dos profissionais da educação. Precisamos conhecer-nos melhor, termos uma visão mais ampla dos nossos alunos, não só no que diz respeito ao seu desenvolvimento cognitivo, mas antes de tudo encarando-os como seres humanos com as suas fraquezas e fragilidades.

Para terminar podemos afirmar que doze anos após a Declaração de Salamanca e sete anos após a reflexão do Conselho Nacional de Educação a “profunda reforma” está longe de se concretizar.

Mas não podemos cruzar os braços mas antes trabalhar no sentido de melhorar tudo o que podermos à nossa volta.

É minha convicção que a habilidade e personalidade do professor de apoio educativo é decisiva para ajudar ao longo do ano lectivo a equilibrar um disléxico e faze-lo ultrapassar as suas dificuldades.

Não há cura para a dislexia, mas podemos sempre compensar, “enganar” e contornar de forma a tornar mais saudável a convivência do disléxico.

Julieta Pires de Lima - 2006